Relações Internacionais Relações Internacionais Balança Comercial

O Brasil no meio da luta comercial entre Estados Unidos e China

Por *Pedro H. Pereira

Por CNA 11 de abril 2018
Compartilhe:
578fe2ce954ec0380a853c19d519ea69f6f38ad1de702 0 835084002015283384481

 

A luta comercial entre Washington e Pequim ganhou novas proporções, com troca de farpas e medidas protecionistas. Quais os impactos para o agronegócio brasileiro? Como aproveitar as oportunidades que se criam? É preciso ter cautela para analisar essas questões e não deixar que a euforia do mercado financeiro domine o comércio internacional.

Com o objetivo de “penalizar a China por práticas comerciais desleais” e reduzir o déficit comercial, Donald Trump divulgou medidas que incluem a elevação de tarifas para itens importados do país asiático. Na lista estão milhares de produtos, incluindo televisores, peças de aeronaves, baterias, e componentes tecnológicos.

A retaliação chinesa veio de forma rápida. O país aumentou em até 25% as tarifas de importação para bens de diversos setores estratégicos norte-americanos. Produtos do agro – como soja, algodão, frutas, nozes e castanhas, vinhos, etanol, ginseng e carne suína – foram alvo de Pequim.

Se optarem pelo caminho do diálogo e a tensão se esvair, como ocorreu nos últimos dois dias, as medidas podem criar a base para novas negociações, maiores concessões (incluindo no agro) e melhor entendimento entre os países. Se a retórica protecionista perdurar, as ações podem colocar as duas principais economias mundiais num conflito comercial de grandes proporções, com “spill overs” para todas as demais economias.

O mercado chinês é vital para a economia rural americana. Por isso, as reações internas no país podem ser cruciais para definir a durabilidade das medidas. Grupos de interesse que constituem a base de apoio de Trump já se manifestaram duramente opostos às ações do presidente contra a China.

Os EUA são hoje o principal fornecedor de etanol ao país asiático, respondendo por cerca de 85% das importações. São também o 2º maior vendedor de carne suína e de soja em grãos, com 41% do mercado, atrás apenas do Brasil. A soja é o principal item de exportação dos Estados Unidos para a China.

Entre discursos e tuítes, alguns efeitos já foram sentidos no mercado. Após os anúncios, ondas de especulação fizeram o preço de algumas commodities despencar na Bolsa de Chicago. Como ainda não se sabe a solidez do que foi anunciado, não é possível fazer previsões e nem afirmar que essa movimentação caracteriza uma tendência.

Apesar da elevação das tarifas chinesas gerar grande euforia no Brasil, a cautela deve predominar. Essa reação poderá indicar se conseguiremos, ou não, e como, aproveitar as oportunidades no médio e longo prazo.

Brasil e Estados Unidos estão entre os principais produtores e exportadores agropecuários do mundo. Os dois países possuem sistemas produtivos semelhantes, o que acarreta alta concorrência no mercado mundial em vários setores, especialmente soja, milho, carnes de aves e bovinos. Contudo, isso não significa que a lacuna possivelmente deixada pelos EUA no mercado chinês pode ser suprida da noite para o dia pelo Brasil.

Uma coisa é certa: medidas protecionistas não são o melhor caminho para solucionar o conflito entre os países, nem para o aumento das exportações brasileiras. A maior eficiência na produção e políticas comerciais voltadas para o livre comércio devem ser a base para a competitividade e equilíbrio da balança comercial. Mesmo porque se ficarmos esperando ondas de protecionismo para crescer, isso pode se voltar contra nós.

Em um cenário em que o saldo da balança comercial torna-se fundamento para essas medidas, até o Brasil poderia ser um alvo. O saldo comercial do Brasil com seus cinco principais importadores traz superávits bilionários. Em 2017, tivemos US$ 2 bilhões de superávit com os EUA. Com a China, esse saldo positivo passa dos US$ 20 bilhões.

Além disso, casos passados de protecionismo no comércio mundial demonstram que sem uma política comercial robusta, uma produção competitiva e um trabalho voltado para a abertura e consolidação de mercados, essas oportunidades abruptas de comércio podem durar pouco.

Um bom exemplo para comparação é o caso do embargo russo à importação de frutas, vegetais, carnes, peixes e lácteos da União Europeia, Estados Unidos e outros de 2014. As sanções geraram benefícios imediatos para produtores de diversos países, incluindo o Brasil e os próprios russos.

A carne suína é exemplo. Com a saída da UE do mercado russo, a participação brasileira nas importações desse item passou de 21% em 2013 para 91% em 2017. O volume de exportação praticamente dobrou. Apesar disso, durante esse período, os frigoríficos viram uma escalada de restrições russas e, atualmente, o mercado encontra-se fechado para a carne suína brasileira. Isto é, as sanções entre russos e europeus aumentaram os níveis de protecionismo como um todo e voltaram-se contra o Brasil, embora, num primeiro momento, tenham criado oportunidades.

Por todos esses motivos, ainda que apresentem oportunidades para a ampliação de exportações de alguns produtos do agro brasileiro, as ondas de protecionismo também criam desafios e devem ser muito bem administradas para trazer benefícios ao exportador no médio e longo prazo. A recomendação é agir com prudência, pois existem muitas incertezas com relação às medidas anunciadas e muito está em jogo para China, Estados Unidos e as demais economias mundiais.

Apesar da reação no mercado financeiro, existem outros fatores que podem influenciar a oferta e a demanda mundial. No caso da soja, por exemplo, a quebra da safra argentina, a reação interna nos Estados Unidos, o prêmio pago nos portos brasileiros, e a própria capacidade dos demais exportadores de suprirem o mercado chinês precisam ser analisados.

Por isso, a ansiedade pode não ajudar. Precisamos lutar contra uma enxurrada de práticas protecionistas que pode realinhar exportadores e importadores, com impactos incertos para o Brasil. É crucial ter calma e trabalhar para o estabelecimento de parcerias duradouras e benéficas ao produtor rural brasileiro e a seus parceiros comerciais.

*Pedro Henriques Pereira é Assessor de Relações Internacionais da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil). Artigo publicado no Valor Economico. 

Áreas de atuação

Veja também

Panorama do Agro | Edição 38
Publicações Panorama do agro

Panorama do Agro | Edição 38

23 de outubro 2026

Ler publicação
Mercado de Trabalho do Agronegócio Brasileiro | 2° Trimestre 2026
Publicações Boletim

Mercado de Trabalho do Agronegócio Brasileiro | 2° Trimestre 2026

Núcleo Econômico

16 de outubro 2026

Ler publicação
Crédito rural em ano de margens estreitas
Publicações Campo futuro

Crédito rural em ano de margens estreitas

Café

13 de outubro 2026

Ler publicação
Panorama do Agro | Edição 36
Publicações Panorama do agro

Panorama do Agro | Edição 36

9 de outubro 2026

Ler publicação
Panorama do Agro | Edição 37
Publicações Panorama do agro

Panorama do Agro | Edição 37

9 de outubro 2026

Ler publicação
Pesquisa da pecuária municipal (ppm) 2025: rebanho bovino cai pelo segundo ano consecutivo
Publicações Publicação

Pesquisa da pecuária municipal (ppm) 2025: rebanho bovino cai pelo segundo ano consecutivo

Bovinocultura de corte, Bovinocultura de Leite, Aquicultura e Equideocultura Bovinocultura de corte, Bovinocultura de Leite, Aquicultura e Equideocultura Bovinocultura de corte, Bovinocultura de Leite, Aquicultura e Equideocultura Bovinocultura de corte, Bovinocultura de Leite, Aquicultura e Equideocultura

8 de outubro 2026

Ler publicação
Panorama do Agro | Edição 35
Publicações Panorama do agro

Panorama do Agro | Edição 35

2 de outubro 2026

Ler publicação
Agosto tem criação de 165,8 mil empregos formais
Publicações Caged

Agosto tem criação de 165,8 mil empregos formais

Núcleo Econômico

1 de outubro 2026

Ler publicação
Cenários de mercado e custos na aquicultura
Publicações Campo futuro

Cenários de mercado e custos na aquicultura

Aquicultura

28 de setembro 2026

Ler publicação