Relações Internacionais acordos comerciais Mercado Asiático

Artigo/Sueme Mori: a cidade do Leão abre as portas da Ásia

Por CNA 22 de dezembro 2023
Compartilhe:
SUEME

Após 11 anos sem celebrar nenhum acordo comercial, o Mercosul assinou, em dezembro, o acordo de livre comércio (ALC) com Cingapura. O anúncio foi feito durante a 63ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, ocasião em que também foi oficializada a entrada da Bolívia no bloco. Apesar de todo esforço do governo brasileiro para que a principal notícia da Cúpula fosse a conclusão do acordo com a União Europeia, os anúncios envolvendo Cingapura e a Bolívia foram o ponto alto do encontro ocorrido no Rio.

A essência de um ALC é a redução significativa ou eliminação das tarifas de importação entre os países signatários, com vistas à ampliação das trocas comerciais entre eles. A estrutura tarifária de cada país reflete o seu grau de abertura comercial. Cingapura, por exemplo, é reconhecida como uma economia aberta, orientada para o mercado externo. Cerca de 99% das importações entram no país com tarifa zero. Existem somente 4 categorias de bens tributáveis: bebidas alcoólicas, produtos de tabaco, veículos motorizados e produtos petrolíferos. Além disso, o país possui uma extensa rede de acordos de livre comércio: 27.

Se as tarifas já estão praticamente zeradas, quais são os benefícios reais de um acordo com Cingapura? Além dos impactos positivos na economia brasileira, previstos pelo Ministério da Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o acordo possui um significado muito mais abrangente. Em primeiro lugar, ele é o primeiro ALC que o Mercosul assina com um país asiático. Atualmente, a rede de acordos do bloco sul-americano possui baixa cobertura, especialmente considerando o setor agropecuário. E um dos principais motivos é exatamente a ausência da Ásia nessa lista.

Em 2022, o Brasil vendeu US$ 79 bilhões em produtos agropecuários para a Ásia. Isso representou 50% do total exportado pelo setor. Este ano, até novembro, esse número já alcançou U$ 87 bilhões e a participação dos asiáticos aumentou para 54%. A China, claramente, é a principal responsável pela maior fatia desse bolo, mas fato é que outros países da Ásia vêm ganhando destaque como destino das exportações agropecuárias do Brasil, como é o caso de Cingapura, que comprou no ano passado US$ 675 milhões, 30% a mais do que em 2021.

Cingapura não possui condições naturais favoráveis à produção agrícola e pecuária e, por isso, depende fortemente das importações para garantir o abastecimento interno. Cerca de 90% dos alimentos consumidos localmente são importados. O que torna o mercado extremamente atrativo para o Brasil, que é o terceiro maior exportador de alimentos do mundo.

Outro motivo que torna o estreitamento das relações com Cingapura tão significativo é a sua localização e o importante papel que o país possui como centro financeiro da Ásia. O porto de Cingapura é o segundo mais movimentado do mundo e cerca de 80% da carga que passa por lá tem outros mercados como destino final. Além disso, o país possui um arcabouço de incentivos para receber investimentos estrangeiros e, por isso, empresas que operam no mercado asiático têm escolhido o país como local para se instalarem.

Cingapura, que significa "Cidade do Leão" é uma cidade-estado moderna, com um forte ecossistema de inovação e ares de metrópole global. O país possui uma extensão um pouco menor do que Goiânia, com cerca de 5,8 milhões de habitantes e um PIB per capita quase 9 vezes maior do que o Brasil.

Com uma população que fala as duas principais línguas do mundo dos negócios, inglês e mandarim, o país busca se manter neutro na disputa geopolítica entre o "ocidente e oriente". Tanto que Cingapura foi o local escolhido para o histórico encontro ocorrido entre o então presidente dos Estados Unidos Donald Trump e o líder norte-coreano Kim Jong-un, em 2018.

Para o agro brasileiro, o Acordo tem o potencial real de ampliar as exportações do setor, não só para Cingapura, mas para outros países do Sudeste Asiático. Os termos negociados no ALC favorecem o acesso de produtos agropecuários, como o reconhecimento do "pré-listing" como processo de habilitação de plantas. Por essa modalidade, o país exportador (nesse caso, o Brasil) informa ao país importador (Cingapura) os estabelecimentos que estão aptos para vender determinado produto de origem animal, sem a necessidade expressa de uma inspeção local.

Num cenário internacional cada vez mais complexo, onde a incerteza é a única certeza, o Acordo firmado com Cingapura traz um elemento raro nos dias atuais: previsibilidade de regras. Especialmente para o setor agropecuário, essa característica vale ouro.

Que esse seja somente o primeiro de vários acordos a serem firmados com a Ásia e com outras regiões do mundo onde o crescimento populacional e o aumento da renda têm gerado uma maior demanda por alimentos. O Brasil já é protagonista na garantia da segurança alimentar mundial e o único país do mundo em condições de ampliar a sua produção interna de maneira sustentável, atendendo as necessidades da sua população e de outras nações.

Sueme Mori é diretora de Relações Internacionais da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA)

*Artigo publicado originalmente na Broadcast

Áreas de atuação

Veja também

Panorama do Agro | Edição 38
Publicações Panorama do agro

Panorama do Agro | Edição 38

23 de outubro 2026

Ler publicação
Mercado de Trabalho do Agronegócio Brasileiro | 2° Trimestre 2026
Publicações Boletim

Mercado de Trabalho do Agronegócio Brasileiro | 2° Trimestre 2026

Núcleo Econômico

16 de outubro 2026

Ler publicação
Crédito rural em ano de margens estreitas
Publicações Campo futuro

Crédito rural em ano de margens estreitas

Café

13 de outubro 2026

Ler publicação
Panorama do Agro | Edição 36
Publicações Panorama do agro

Panorama do Agro | Edição 36

9 de outubro 2026

Ler publicação
Panorama do Agro | Edição 37
Publicações Panorama do agro

Panorama do Agro | Edição 37

9 de outubro 2026

Ler publicação
Pesquisa da pecuária municipal (ppm) 2025: rebanho bovino cai pelo segundo ano consecutivo
Publicações Publicação

Pesquisa da pecuária municipal (ppm) 2025: rebanho bovino cai pelo segundo ano consecutivo

Bovinocultura de corte, Bovinocultura de Leite, Aquicultura e Equideocultura Bovinocultura de corte, Bovinocultura de Leite, Aquicultura e Equideocultura Bovinocultura de corte, Bovinocultura de Leite, Aquicultura e Equideocultura Bovinocultura de corte, Bovinocultura de Leite, Aquicultura e Equideocultura

8 de outubro 2026

Ler publicação
Panorama do Agro | Edição 35
Publicações Panorama do agro

Panorama do Agro | Edição 35

2 de outubro 2026

Ler publicação
Agosto tem criação de 165,8 mil empregos formais
Publicações Caged

Agosto tem criação de 165,8 mil empregos formais

Núcleo Econômico

1 de outubro 2026

Ler publicação
Cenários de mercado e custos na aquicultura
Publicações Campo futuro

Cenários de mercado e custos na aquicultura

Aquicultura

28 de setembro 2026

Ler publicação