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Ex-alunos do Agrinho, profissionais de excelência
Capa Agrinho

Conheça a história de ex-participantes que foram inspirados pelo programa do Sistema FAEP/SENAR-PR e que hoje são referências em suas respectivas áreas

4 de novembro 2022
Por Senar

Bianca Ogliari é responsável pelos processos de inovação de produto de uma das marcas do Grupo Boticário. Douglas Thaynã Vieira de Souza é médico especialista em saúde da família e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Leandro Volanick é CEO da Manfing, uma startup avaliada em R$ 19 milhões. Eles não se conhecem, mas têm um ponto em comum: ainda na infância ou pré-adolescência foram vencedores de concursos do Agrinho, maior iniciativa social do Sistema FAEP/SENAR-PR. O impacto que o programa exerceu na vida deles foi além do prêmio. As atividades pedagógicas propostas contribuíram para a escolha do caminho profissional seguido por cada um.

Bianca, Douglas e Leandro são exemplos de excelência, de um universo muito maior de estudantes que tiveram a vida impactada pelo Agrinho. A cada ano, o programa envolve mais de 1 milhão de alunos das redes pública e privada, de todos os municípios do Paraná. Ao longo de suas 27 edições, mais de 5,7 mil foram premiados. Além disso, a iniciativa envolve, anualmente, mais de 50 mil professores, como Edna Aparecida Filipim, uma entusiasta do Agrinho, que já participou de 20 edições do programa e que hoje é coordenadora pedagógica do Núcleo Regional de Educação da Secretaria de Estado da Educação (Seed), em Goioerê, no Noroeste do Estado.

“O Agrinho já faz parte do calendário da educação paranaense. É um dos programas de que nós, do Sistema FAEP/SENAR-PR, mais nos orgulhamos. São 27 anos de história. E ao longo desse tempo todo, temos visto o quanto essa iniciativa muda a vida dos alunos”, ressalta o presidente do Sistema FAEP/SENAR-PR, Ágide Meneguette.

Entre palavras e fragrâncias

Ainda muito cedo, Bianca Ogliari apaixonou-se pelos livros. Passava a maior parte do recreio da escola na biblioteca, entre histórias que lhe estimulavam. Aos 12 anos, já tinha lido Machado de Assis, James Joyce e Mário Quintana, e tinha o sonho de se tornar juíza federal. Como aluna do Colégio Futura, em Coronel Vivida, no Sudoeste do Paraná, participou do Agrinho pela primeira vez, na categoria Redação. Redigiu um texto que versava sobre a vida em sociedade, partindo de uma frase de Quintana: “Somos todos anjos de uma asa só e somente abraçados podemos alçar voo”.

Bianca Ogliari

“Foi a redação que mais me marcou. Foi ali que aprendi a estruturar um texto, com introdução, desenvolvimento e conclusão. Também usei referências de Machado de Assis. Era uma Bianca que já mostrava os valores que até hoje eu carrego comigo, social e politicamente”, diz Bianca.

Como finalista do Agrinho, ela viajou a Curitiba, acompanhada pela mãe, Marli Ogliari, e por alguns professores. No evento, veio a consagração: a redação de Bianca ficou em primeiro lugar. Mais do que a importância do prêmio em si, a estudante se sentiu estimulada a continuar escrevendo. “Eu me senti como estivesse indo para o Oscar. Foi um momento atípico na vida de uma menina: evento enorme, com muita gente e eu estava bem assustada. Lembro de, depois do anúncio, eu dar uma entrevista bem eufórica. Eu vivenciei aquilo e disse para mim mesma: eu quero escrever para o resto da minha vida”, relembra.

A relação de Bianca com a escrita se acirrou tanto, que o seu sonho profissional migrou para o jornalismo. Formou-se na Universidade Positivo, em Curitiba. “Eu acreditava que a palavra tem o poder de desenvolver socialmente qualquer ser humano”, explica. Ao longo dos anos, a carreira da jornalista foi se transformando, mas sempre tendo a escrita como base. Passou por agências de criação até chegar ao seu maior desafio: o Grupo Boticário.

Hoje, Bianca é analista de produto sênior da O.U.i., a marca de alta perfumaria francesa do Grupo Boticário. A profissional é responsável pela área de inovação da marca, desenvolvendo o conceito de cada fragrância a ser criada. E o ofício tem muito a ver com instrumentais do jornalismo e, é claro, com a escrita. Aos 26 anos, olhando em retrospecto, Bianca percebe que carrega a essência daquela menina de 12 anos que venceu o Agrinho.

“Eu escrevo os projetos, definindo os conceitos de cada produto. A escrita é a base, mas também tem pesquisa, leitura e discussão dos processos com a equipe. Eu passo o dia anotando ideias, estudando, lendo e, é claro, escrevendo. No final, a fragrância criada tem que casar com o conceito que escrevi”, explica. “A redação do Agrinho foi o detalhe que comprovou minha paixão pela escrita. É parte importante do meu trabalho. A Bianca de 12 anos nunca esteve errada. Eu ainda tenho a essência e o caráter dela”, diz.

O médico-educador

Aos oito anos, Douglas Vieira de Souza estava numa ansiedade sem precedentes em 2002. Morador de Bragantina, distrito do município de Assis Chateaubriand, no Oeste do Paraná, era a primeira vez que viajava a Curitiba. Passou a noite na estrada, ao lado do pai e da mãe, para participar de cerimônia de premiação do Agrinho daquele ano. Filho de uma professora e aluno aplicado, Douglas era um dos finalistas na categoria Redação.

Douglas Vieira de Souza

“Foram anunciando os vencedores. Quando chegou na minha categoria, falaram que eu ganhei. Eu mal podia acreditar. O Agrinho me incentivou a continuar a estudar. Depois, eu ganhei vários concursos de redação e de poesia”, conta. “Eu só fiquei um pouco bravo, porque o primeiro prêmio era uma televisão e eu estava de olho na bicicleta, que era o quinto prêmio”, recorda, rindo do caso.

Souza se aprofundou nos estudos e, de quando em quando, acompanhava a mãe na escola em que lecionava para o Ensino Fundamental. Além de vivenciar o dia a dia do colégio, o menino se debruçava sobre livros infanto-juvenis (como os da Série Vagalume) e de biologia. Ele cresceu com a ideia de cursar jornalismo, mas no Ensino Médio acabou mudando. “Eu sempre me interessei pelo corpo humano e sempre gostei de cuidar das pessoas. Eu pensei que medicina poderia ser um caminho”, contou.

Seguindo essa trilha, em 2011, Douglas começou a cursar Medicina na PUC-PR, por bolsa de estudos pelo Programa Universidade Para Todos (Prouni). Ao longo do curso, o universitário se fascinou pela medicina de família e comunidade, especialidade que visa o atendimento das pessoas a longo prazo, estabelecendo vínculo com os pacientes. Trata-se de um viés mais humanizado da medicina. Com paixão pela área, se tornou mestre diplomado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), e já se prepara para o doutorado.

“Me encanta a possibilidade de estar junto com a família, acompanhando o paciente de forma integrada e contínua. Você cria uma relação muito maior com os pacientes e consegue fazer muito mais por ele”, diz.

Paralelamente, Souza se tornou professor: dá aulas de Medicina do curso da PUC-PR. De certo modo, o médico-professor entende essa sua atuação profissional como uma reconexão com os tempos em que era aluno do Agrinho. “Eu sempre soube que, independentemente da profissão, eu acabaria dando aula. Para os estudantes que fazem o Agrinho, eu diria para aproveitarem as oportunidades que aparecem, porque podem ter repercussão na futura vida profissional. Para mim, o Agrinho marcou muito”, declarou.

Do computador à startup milionária

O computador que Leandro Volanick ganhou aos 14 anos, como prêmio por ter vencido a categoria Redação do Agrinho, em 2006, foi fundamental para o desenvolvimento profissional do jovem. Na ocasião, ele não poderia imaginar que se tornaria co-fundador e CEO da Manfing, startup que desenvolveu um software de inteligência artificial que identifica o padrão de consumo de clientes, avaliada em R$ 19 milhões. A empresa presta serviços a gigantes, como Bayer, Suvinil, Pado, Neugebauer e Meta.

Leandro Volanick

“A gente atende empresas do Brasil e de outros países. Temos 25 colaboradores em sete Estados e estamos nos preparando para abrir uma filial no Canadá. O nosso modelo de negócio cria essa possibilidade de ampliarmos os serviços ao mercado internacional”, conta Volanick.

Tudo isso é gerenciado em Toledo, Oeste do Paraná, onde a startup tem a sua matriz. Foi lá que Leandro nasceu e mora ainda hoje. Estudou no Colégio Estadual Jardim Porto Alegre, onde entrou em contato com o Agrinho, programa que estimulou seus valores socioambientais. Ainda hoje, o agora empresário se lembra da sua redação. “O tema era biodiversidade e a importância da preservação. Eu escrevi sobre o ecossistema, que é como um relógio, precisa de todas as suas peças para funcionar”, conta. “Eu gostava muito de ler e escrever, tinha noção da diferença que o conhecimento faz na vida das pessoas”, relembra.

Leandro também mantém intactas as lembranças da viagem e da cerimônia de premiação. Antes de embarcar acompanhado do pai, Renato Volanick, foi convidado a conhecer o Sindicato Rural de Toledo. Em Curitiba – sua primeira viagem à capital –, lembra-se da grandiosidade do evento realizado no Restaurante Madalosso e da expectativa em torno da premiação.

“Quando saí de Toledo eu tinha esperança de vencer, mas quando vi a quantidade de gente a esperança diminuiu. Eu fiquei bem surpreso e feliz quando chamaram meu nome do palco”, relembra.

O computador recebido como prêmio foi instalado no quarto do então estudante. Na época, ele era menor-aprendiz de uma empresa de tecnologia em Toledo. Com o novo computador, pôde se aprofundar no universo da informática, aprendendo sobre códigos de programação. Aquilo ajudou a direcioná-lo para a carreira de cientista de dados.

“Meu conselho é para os alunos aproveitarem as pequenas oportunidades, porque elas podem mudar nossa vida. No meu caso, o computador que ganhei e o reconhecimento que tive ajudaram a formar o profissional que sou hoje. Na época, a área de tecnologia era só uma possibilidade na minha vida. E isso se tornou realidade”, disse.

21 vezes Agrinho

A educadora Edna Aparecida Filipim vai participar de sua 21ª edição do Agrinho. Entusiasta do programa, ela guarda como se fossem medalhas os crachás de identificação que usou nas cerimônias de premiação. O envolvimento dela com a iniciativa de responsabilidade social do Sistema FAEP/SENAR-PR começou em 2000. E, pé-quente, logo na estreia teve uma aluna premiada.

Edna Aparecida Filipim

“Eu estava na coordenação de uma escola em Moreira Sales [Noroeste do Paraná], quando chegou um envelope com material do Agrinho. Eu achei fantástico, divulguei para os professores. Tivemos uma aluna premiada e a diretora me chamou e disse: ‘Você que trabalhou para implantar o programa aqui. Então, é justo que você vá para a premiação’”, relembra.

No ano seguinte, como professora da Educação Infantil no Colégio Estadual Moreira Salles, Edna levou o Agrinho para a sala de aula e uma de suas alunas ficou em primeiro lugar na categoria Redação. Como prêmio, a professora ganhou um automóvel, que permaneceu com a família até o ano passado. Nos anos seguintes, seguiu a tradição de participar do programa.

“Eu já ganhei muitos prêmios. Carro, microondas, televisão... É claro que ganhar o prêmio é legal. Mas o mais importante é que o Agrinho permite você trabalhar os temas de forma transversal e contribuir para o desenvolvimento das pessoas. Tem ex-alunos que nunca se esqueceram de mim pela forma como a gente trabalhou o Agrinho”, diz.

A professora dá exemplos. Em uma das experiências pedagógicas, desenvolveu um programa de educação fiscal, com os alunos fazendo pedágio para conscientizar as pessoas sobre a importância de pedir a nota fiscal. Em outro ano, produziu um filme com os alunos sobre sustentabilidade. No encerramento do trabalho, a turma teve direito a uma sessão de luxo.

“Nós levamos a turma ao cinema de Campo Mourão. Assistimos a um filme do Didi [Renato Aragão] e, depois, o dono do cinema passou o nosso filme. Foi emocionante. Uma aluna, a Maria, chorava porque estava se vendo na telona. Naquele ano, nosso projeto não foi premiado, mas a reação dos alunos foi melhor que qualquer prêmio”, diz Edna.

O trabalho com o Agrinho foi um dos motivos que fez Edna ser chamada para atuar como coordenadora pedagógica no Núcleo Regional de Educação (NRE) em Goioerê. “O Agrinho chegou como um passe de mágica na minha vida e transformou a forma como eu vejo a educação. A cada ano que participo da cerimônia em Curitiba, volto com novas inspirações para desenvolver na minha escola”, ressalta.

Na casa do Agrinho

Cursando o sétimo período de Administração, na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), o universitário Luiz Gabriel Popovicz Borato começou uma nova experiência profissional em setembro: estagiário do Departamento Técnico (Detec) do Sistema FAEP/SENAR-PR. Só quando contou em casa que tinha sido aprovado no estágio é que soube pela irmã – que é professora – de que a entidade é responsável pelo Agrinho. Só então o jovem de 24 anos se lembrou do personagem que ilustrava cartilhas e jogos lúdicos de que tanto gostava, no Ensino Fundamental.

Luiz Gabriel Popovicz Borato

“De cara, eu não tinha relacionado o Agrinho ao Sistema FAEP/SENAR-PR. Aí, quando minha irmã falou, eu me lembrei de tudo. Fiquei feliz por estar na ‘casa’ do Agrinho”, diz Borato. “Eu até ajudei na avaliação de algumas das redações do concurso deste ano. Achei muito criativas”, conta.

Nascido em Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba, Borato ainda lembra do fascínio que o personagem exercia nos alunos do Ensino Fundamental. “[O Agrinho] tinha identificação com as crianças. É um personagem carismático, com uma cara engraçada. A gente pegava o material e ficava com vontade de ler. Lembro muito das cartilhas, dos jogos educativos”, relembra.

Ainda hoje, o universitário carrega ensinamentos do Agrinho, relacionados à sustentabilidade e cuidados ambientais. Na avaliação dele, o conteúdo ajuda a levar debates importantes para dentro dos núcleos familiares. “É um programa que promove a conscientização. As crianças levam para casa o que aprenderam, explicam para os pais, que acabam acatando. A questão da reciclagem, por exemplo, ajuda bastante”, opina.

Borato vem aproveitando com empenho o estágio e sente um certo orgulho por estar na ‘casa’ do Agrinho. “Está sendo bem legal. As equipes são muito receptivas, abertas a explicar, a ajudar. Eu pretendo aproveitar ao máximo, como aproveitei o Agrinho”, diz.