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Feijão tem alta no mercado e baixa no campo
Feijao

Clima derrubou a produtividade das lavouras do Estado e impactou no aumento dos preços da leguminosa no ano passado. Cenário ainda está indefinido para 2021

12 de fevereiro 2021
Por CNA

Em um ano turbulento como 2020, com clima adverso e a pandemia, o feijão experimentou alegrias no mercado e tristezas no campo. Puxado pelo aquecimento no consumo doméstico, o preço da leguminosa atingiu patamares expressivos, que teriam capitalizado os produtores se a estiagem não tivesse jogado para baixo a produtividade das lavouras.

No Paraná, maior produtor de feijão preto do Brasil, o movimento dos preços e as mudanças climáticas são acompanhados com expectativa por produtores. Ao longo das três safras 2019/20, o Estado produziu 587,1 mil toneladas do grão, em uma área de 379,3 mil hectares, resultando numa média de 25 sacas (de 60 quilos) por hectare, incluindo o preto e o carioca.

Apesar de três safras por ano, apenas a primeira (safra das águas), semeada entre agosto e dezembro, e a segunda (safra seca), plantada entre janeiro e março, têm relevância no Estado. De acordo com o engenheiro agrônomo Carlos Alberto Salvador, do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento (Seab), a primeira safra na temporada 2019/20 foi boa, superando o potencial estimado de produção em 3%. Porém, o avanço da estiagem prejudicou o desenvolvimento da segunda, que apresentou quebra de 40% em relação ao potencial produtivo. Desta forma, a produção total paranaense ficou 22% abaixo da expectativa.

Somada a questão climática, que reduziu a oferta do grão, a pandemia do novo coronavírus imprimiu nova dinâmica ao consumo, principalmente nos primeiros meses do isolamento social (março e abril de 2020). O mercado observou um apetite maior por parte dos consumidores, muitos preocupados em estocar o produto.

Com menor oferta e maior demanda, o feijão experimentou alta significativa. Segundo dados do Deral, no primeiro semestre de 2020, agricultores paranaenses chegaram a receber, entre abril e maio, R$ 304,65 a saca para o feijão tipo cores (carioquinha) e até R$ 221,75 para tipo preto entre maio e junho.

O movimento se repetiu no varejo, com a escalada de preços do feijão nos supermercados. O pacote de um quilo do feijão preto teve seu pico em dezembro de 2020, chegando a R$ 7,04, enquanto o carioca bateu em R$ 8,13 em maio daquele ano. Para efeito de comparação, em fevereiro de 2020, pouco antes da pandemia explodir no Brasil, o quilo do feijão carioca no supermercado custava R$ 5,41 e o preto R$ 4,31.

Na opinião do presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe), Marcelo Lüders, os preços devem se manter em patamares altos neste ano. “A tendência é que o preço continue forte. Podemos ter variações com o mercado mais positivo, mas a média de preço vai ser para cima”, avalia.

Segundo Lüders, não só no Brasil que o grão está valorizado. “Os empacotadores, estavam procurando opções para importar feijão preto de fora do Mercosul. Achavam que R$ 300 a saca estava caro. Fomos atrás de preço nos Estados Unidos e México e descobrimos que o feijão mais barato do mundo hoje é o brasileiro”, afirma. Ano passado, o Brasil importou 113 mil toneladas de feijão, sendo 94 mil do preto.

Na opinião do dirigente do Ibrafe, a demanda mundial por feijão deve continuar aquecida por três motivos. “O primeiro é que a soja e o milho tomam espaço do feijão em outros países. Além disso, no que diz respeito à pandemia, vemos um consumo maior de pulses [leguminosas como o feijão, lentilha, grão de bico], pois é a fonte de proteína vegetal com o melhor preço. O terceiro motivo é o movimento mundial pela saúde. As pessoas querem saber de onde vem o seu alimento, como foi produzido”, enumera. “Como temos tido preços recordes, nunca vistos antes em soja e milho, é possível que vejamos recordes de preço no feijão também”, afirma. Ainda, segundo Lüders, a entrada do feijão paranaense no mercado neste momento não foi suficiente para derrubar o preço.

Chuva é a preocupação para safra atual

Atualmente, o Paraná passa por um momento de grande expectativa com a colheita da primeira e plantio da segunda safra 2020/21. Para este ciclo está prevista uma área de 150,4 mil hectares na primeira safra, 1% menor que a anterior. De acordo com Boletim do Deral, de 5 de fevereiro, 72% do total plantado nesta etapa já haviam sido colhidos. A expectativa é uma produção em torno de 298,4 mil toneladas, 6% menor que a safra anterior.

A segunda safra (seca), deverá ocupar uma área de 237,3 mil hectares, 6% superior à anterior. Segundo dados do Deral, a semeadura já estaria em 16%. A expectativa é de uma produção da ordem de 468,7 mil toneladas, se o clima ajudar. Esse resultado é 74% superior ao registrado na safra seca de 2019/20, quando houve quebra significativa na produção.

Diferente da temporada anterior, marcada pela estiagem, desta vez é a chuva que pode trazer dor de cabeça aos agricultores. “Terminei de colher um dia antes da chuvarada, do contrário, perderia tudo”, conta o produtor Edimilson Roberto Rickli, que também é presidente do Sindicato Rural de Prudentópolis, na região dos Campos Gerais. Se demorasse mais um pouco, além do risco de brotamento e doenças, também seria mais complicado entrar com as máquinas na lavoura. O mesmo vale para o plantio da safra seca, sem trégua de São Pedro, a semeadura terá de esperar.

No manejo de Rickli, o feijão é plantado um pouco tarde. No ano passado, o grão foi semeado no final de setembro. “Tenho optado por plantar um trigo um pouco mais precoce e depois o feijão mais tarde e depois entro na área com milho safrinha” conta o produtor, que já aposta nessa rotação de culturas há quatro anos. Ele e a família plantam cerca de 800 hectares de feijão, 90% do tipo preto e o restante carioca.

Com tudo planejado, Rickli não tem planos para destinar a área do feijão para outras culturas, como soja e milho, que vem encontrando preços excelentes nas bolsas internacionais. Mas isso pode mudar, dependendo das condições de produção. “Mesmo aqui em Prudentópolis, se baixar o preço [do feijão] e não houver nenhum estímulo, o povo vai para a soja, que é mais seguro”, afirma.

No caso do feijão, que não é comercializado em bolsa internacional, os produtores amargam apenas o “lado ruim” da alta do dólar, pois ocorre o encarecimento dos insumos, boa parte importados. De outro lado, a alta na moeda americana não aumenta o preço de venda do feijão.

Neste ano não foi identificada uma migração significativa da área destinada ao feijão para outras culturas. Segundo Carlos Alberto Salvador, do Deral, a previsão inicial da área para o feijão não sofreu muitas alterações. Porém, uma mudança que se observa ao longo dos anos é a força da segunda safra em relação à primeira.

“Antes, a primeira [safra] era maior. Com a valorização da soja, muitos migraram”, explica. “Se comparar a atual com a de 2015, vai ver que a área destinada ao feijão é 43% menor. O pessoal está indo para a soja”, observa Marcelo Lüders, do Ibrafe.