Custo de produção, logística e armazenamento desafiam a produção de arroz em Mato Grosso

Apesar dos ganhos de produtividade, área cultivada no estado caiu 51,41% em dez anos

30 de outubro 2026
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Arquivo Governo RS

Rosangela Milles

Fonte: Sistema Famato

Celebrado em 31 de outubro, o Dia Internacional do Arroz chama a atenção para a importância do cereal na alimentação e na agricultura. Em Mato Grosso, a data também é uma oportunidade para olhar para os desafios da produção. Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o estado ocupa a quarta posição entre os maiores produtores de arroz do Brasil, mas enfrenta desafios para ampliar a participação da cultura no cenário agrícola nacional.

Os custos de produção, a distância dos armazéns especializados e as dificuldades de comercialização estão entre os principais obstáculos enfrentados pelos produtores rurais. Mesmo com os avanços tecnológicos e os ganhos de produtividade, a área destinada ao cereal no estado diminuiu ao longo da última década.

Dados da Conab, analisados pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), mostram que a área cultivada com arroz em Mato Grosso passou de 152,50 mil hectares na safra 2015/2016 para 74,10 mil hectares em 2025/2026, uma redução de 51,41%. No mesmo período, a produtividade média aumentou 27,71%, mas não foi suficiente para compensar a diminuição da área. Com isso, a produção estadual caiu 37,94%, passando de 438,60 mil para 272,20 mil toneladas.

O cenário reflete as mudanças no uso das áreas agrícolas e a expansão de outras culturas, que ganharam espaço no planejamento dos produtores. A dificuldade de comercialização também pesa na decisão de investir no arroz, especialmente para quem não dispõe de estrutura própria de armazenamento.

O produtor rural Allan Mafra, de Porto dos Gaúchos, conhece essa realidade. Segundo ele, além dos custos envolvidos no cultivo, o produtor enfrenta incertezas na hora de vender a produção, já que o preço pode variar significativamente entre o plantio e a colheita.

“Você coloca ele na terra, faz todo o investimento, todo o trabalho e, na hora da colheita, você descobre o preço que vai estar”, relata.

De acordo com Allan, diferentemente da soja, para a qual existem mecanismos de negociação que permitem ao produtor fixar antecipadamente o preço de parte da produção, o arroz apresenta mais dificuldades para esse tipo de planejamento. Ele explica que, em muitos casos, o preço cai no período da colheita e volta a subir meses depois.

Nesse cenário, ter condições financeiras para armazenar o cereal e esperar um momento mais favorável para a venda pode fazer diferença na rentabilidade. Porém, nem todos os produtores conseguem manter a produção estocada por tanto tempo.

Allan explica que praticamente toda a produção da região é entregue a um único armazém que recebe o cereal. Depois, o produto segue para grandes empresas beneficiadoras e distribuidoras, que abastecem mercados consumidores de diferentes regiões do país.

A concentração dos pontos de recebimento limita as alternativas de comercialização e reforça a importância da estrutura de armazenagem para a atividade.

O produtor rural Darlan Welter, que trabalha com arroz e outras culturas agrícolas em Mato Grosso, também aponta a logística como um dos principais entraves. Segundo ele, a distância dos armazéns e a necessidade de contar com estruturas especializadas dificultam o escoamento da produção.

“Os principais desafios para produzir arroz em Mato Grosso são a logística e a distância dos armazéns. Não é qualquer armazém que sabe trabalhar com o cereal”, destaca.

Darlan também chama a atenção para a colheita. O arroz exige cuidados específicos e provoca desgaste significativo nas colheitadeiras, o que dificulta a contratação de serviços terceirizados, principalmente para produtores que não possuem máquinas próprias.

Para ele, o investimento em tecnologia e o manejo adequado são fundamentais para obter bons resultados. O produtor também ressalta que as características do solo e as condições de cada área precisam ser consideradas no planejamento da lavoura.

Produção nacional e mercado

Enquanto Mato Grosso registra redução na área cultivada, a produção brasileira de arroz apresentou crescimento no período analisado pelo Imea. Entre as safras 2015/2016 e 2025/2026, a área nacional diminuiu 24,45%, mas o aumento de 38,31% na produtividade média contribuiu para elevar a produção em 4,46%, alcançando 11,08 milhões de toneladas.

A região Sul do país concentra aproximadamente 83% da produção brasileira. O Rio Grande do Sul, principal produtor nacional, respondeu por 70,62% do volume produzido na safra 2025/2026, com 7,82 milhões de toneladas.

Do lado da demanda, o consumo brasileiro de arroz passou de 10,50 milhões de toneladas na safra 2021/2022 para 10,80 milhões em 2025/2026, crescimento de 2,79%. A produção nacional é direcionada principalmente ao abastecimento interno, mas o país também participa do comércio internacional.

Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) reunidos na análise do Imea, as exportações brasileiras somaram 1,31 milhão de toneladas entre janeiro e setembro de 2026, com receita de US$ 388,66 milhões. Em Mato Grosso, os embarques chegaram a 3,37 mil toneladas no mesmo período, gerando US$ 2,03 milhões.

Os números mostram que, embora a produção mato-grossense tenha diminuído ao longo da década, o arroz estadual continua atendendo ao mercado interno e participando, ainda que de forma complementar, das exportações brasileiras.

Rotação de culturas amplia o papel do arroz

Além da produção de alimentos e da geração de renda, o arroz pode desempenhar uma função importante no planejamento das lavouras. Quando inserido em sistemas de rotação, o cereal contribui para diversificar as culturas, interromper ciclos de determinadas pragas e doenças e favorecer o manejo do solo.

O assessor de Agricultura da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), Alex Rosa, explica que a alternância entre culturas com características diferentes ajuda a reduzir problemas fitossanitários e melhora o aproveitamento dos recursos disponíveis no sistema produtivo.

A rotação também contribui para diversificar os sistemas radiculares, favorecer a agregação do solo, melhorar a infiltração de água e promover a ciclagem de nutrientes. A cobertura vegetal deixada após a colheita, por sua vez, ajuda a proteger a superfície do solo contra a erosão e as variações de temperatura.

No caso do arroz, a cultura pode integrar sequências com soja, milho e plantas de cobertura, como milheto e braquiária. O planejamento deve considerar as características da área, a época de semeadura, a disponibilidade de água e o intervalo adequado entre os cultivos.

O arroz de terras altas também apresenta características que favorecem seu uso em determinadas áreas de transição para a agricultura, pois tolera melhor a acidez do solo e a presença de alumínio do que a soja. Isso, porém, não elimina a necessidade de correção da fertilidade e de um manejo adequado.

Alex ressalta que “os benefícios dependem da condução do sistema produtivo. A repetição do arroz na mesma área, sem o intervalo necessário, pode aumentar a incidência de doenças, como a brusone, além de outros problemas fitossanitários. Por isso, a diversificação precisa ser acompanhada de planejamento técnico”, explica Alex.

A cultura também exige atenção à disponibilidade de água, especialmente nas fases reprodutivas, quando a falta de chuva pode comprometer a produtividade. Em Mato Grosso, a época ideal para o plantio do arroz de terras altas (sequeiro) vai de outubro a dezembro, coincidindo com o início das chuvas da primavera e do verão.