CNA apresenta propostas do setor agropecuário para a COP31
Documento reúne prioridades dos produtores rurais para as negociações climáticas
Brasília (15/10/2026) – A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) apresentou, na quinta (15), o posicionamento do setor agropecuário brasileiro para a 31ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 31), que será realizada de 9 a 20 de novembro, em Antalya, na Turquia.
O documento “Agropecuária Brasileira no Acordo de Paris - COP 31” reúne propostas e prioridades do setor para as negociações internacionais sobre mudanças climáticas e representa uma contribuição dos produtores rurais brasileiros para os debates da Conferência.
O posicionamento foi entregue durante a reunião conjunta das Comissões Nacionais de Meio Ambiente e de Irrigação da CNA, que teve a participação de representantes do Ministério das Relações Exteriores, Ministério da Agricultura e da Embrapa.
Debates - O vice-presidente da CNA, Muni Lourenço, que também preside a Comissão Nacional de Meio Ambiente da entidade e a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Amazonas (Faea), coordenou as discussões e apresentou o documento na reunião.
Muni afirmou que é preciso ter orgulho e defender os méritos da agricultura brasileira, que o produtor rural brasileiro preserva e que o agro é parte da solução para o enfrentamento das mudanças climáticas. "O documento de posicionamento da CNA reflete os anseios e pensamentos do agro brasileiro visando contribuir com as negociações da COP 31".
Muni afirmou que, se por um lado a atividade agropecuária é impactada diretamente pelos fatores climáticos, por outro compõe a mais eficiente solução em mitigação e adaptação.
"A CNA, neste documento, parte da premissa que a agricultura ocupa papel central nas ações climáticas que integram as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) sobre as quais estão as metas de redução de emissões de gases de efeito estufa", disse.
O 1º vice-presidente da CNA, Gedeão pereira, destacou o papel do país como exportador líquido de alimentos para o mundo, o papel do agro brasileiro para garantir a segurança alimentar e a atuação da CNA nas COPs mostrando para o mundo a sustentabilidade da agricultura brasileira.
O chefe da Divisão de Negociação Climática do Ministério das Relações Exteriores, Bruno Arruda, reforçou a importância do agro brasileira como solução para as mudanças climáticas e afirmou que as questões ligadas à segurança alimentar e aos biocombustíveis estão entre as principais prioridades nas negociações.
O chefe Assessoria de Relações Internacionais da Embrapa, Marcelo Morandi, lembrou todo o processo de negociação de ações para a agricultura, relatando os avanços e os desafios nos próximos anos. O pesquisador Gustavo Mozzer, também da Embrapa, ressaltou a atuação do agro nos debates para o avanço nas discussões sobre o clima.
O secretário de Desenvolvimento Rural do Mapa, Clecivaldo Ribeiro, avaliou que os produtores rurais sempre estiveram na vanguarda tanto nos debates quanto nas ações de boas práticas e produção sustentável.
Já o professor Daniel Vargas, da FGV, falou sobre as oportunidades econômicas que o agro brasileiro pode ter com a produção sustentável nas questões ligadas à agenda climática.
Por sua vez, o presidente da Comissão Nacional de Irrigação da CNA, David Schmidt, disse que a agricultura irrigada pode dar sua contribuição expressiva para a segurança alimentar e a produção sustentável, e defendeu a aglutinação de dados para quantificar o uso racional de recursos hídricos.
Acordo de Paris - O Acordo de Paris foi firmado em 2015, na COP21, em Paris, em que os países se comprometeram a assumir compromissos para manter o aumento da temperatura global abaixo de 2°C em relação aos níveis pré-industriais, com esforço adicional de limite de 1,5°C.
As Partes também definiram a adoção de metas individuais de redução de gases de feito estufa, as chamadas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e o financiamento de ações de combate aos efeitos das mudanças climáticas a países em desenvolvimento pelas nações desenvolvidas.
Avanços concretos - Para a CNA, a COP 31 precisa marcar um avanço concreto na implementação do Acordo de Paris, que completou 10 anos em 2025.
Depois de anos de definição de metas e compromissos, o desafio é ampliar os resultados no campo, nas cidades e nos diferentes setores da economia.
Na prática, isso significa aumentar os recursos mobilizados para a agenda climática, tornar mais rápido e simples o acesso ao financiamento, ampliar a capacidade de estruturação de projetos, investir em capacitação e cooperação e estimular o comércio de tecnologias e produtos de menor pegada de carbono.
Essas são as condições que a CNA considera necessárias para transformar os compromissos internacionais em ações efetivas.
A entidade está integrada à agenda das COPs há anos e essa atuação se justifica por vários motivos. Na COP 30, por exemplo, realizada em Belém, o Sistema CNA/Senar ampliou essa participação. A entidade esteve presente na AgriZone, onde o Pavilhão AgroBrasil apresentou tecnologias, projetos e experiências da agropecuária sustentável brasileira.
A iniciativa buscou mostrar, com exemplos práticos, como os sistemas produtivos tropicais podem contribuir para as soluções climáticas e para a segurança alimentar e energética.
Agora, para a COP31, a CNA consolida e unifica o posicionamento do setor agropecuário brasileiro.
“As propostas buscam contribuir tanto para o avanço das negociações quanto para transformar a chamada Agenda de Ação, que reúne iniciativas concretas de governos, setor privado e sociedade, em resultados que efetivamente cheguem ao campo”, disse Muni Lourenço.
Prioridades - O documento foi elaborado depois de uma ampla consulta da CNA aos produtores rurais, às Federações estaduais de agricultura e pecuária, sindicatos e entidades do setor.
Neste ano, a COP busca consensos para implementar o Acordo de Paris, sob a presidência cooperativa da Turquia, que será o país-sede e responsável pela Agenda de Ação, e da Austrália, que liderará a agenda de negociações.
O documento organiza o posicionamento da CNA em oito grandes eixos, que vão desde financiamento e adaptação até comércio internacional.
Em todos eles, a preocupação central é aproximar as decisões tomadas nas conferências climáticas da realidade dos produtores rurais.
1. Agenda de Ação e Mapas do Caminho – reconhecer e valorizar quem conserva
O que a CNA defende? – Que os recursos naturais preservados dentro das propriedades rurais tenham valor econômico e que a conservação possa ser financiada, sem comprometer o potencial produtivo das áreas privadas.
É preciso, também, direcionar mais financiamento climático para ações no campo, reconhecer iniciativas que conciliem produtividade e resiliência e ampliar a produção e o uso de biocombustíveis e energias renováveis.
Por que isso importa para os produtores? - Porque cria condições para que a conservação ambiental deixe de representar apenas um custo e possa também ser reconhecida economicamente.
A CNA destaca, por exemplo, a importância da valorização da vegetação nativa conservada nas propriedades e do reconhecimento da efetividade do Código Florestal.
2. Agricultura e segurança alimentar – garantir voz própria ao setor nas negociações
O que a CNA defende? – A continuidade de uma agenda específica de agricultura e segurança alimentar dentro das negociações climáticas. A proposta é que as diferentes formas de produção sejam reconhecidas, evitando a adoção de uma solução única de sustentabilidade para realidades agrícolas muito distintas.
Entre as propostas está fortalecer o Portal de Sharm el-Sheikh, ferramenta internacional que reúne projetos e políticas de agricultura e segurança alimentar, aproximando projetos desenvolvidos no campo de potenciais fontes de recursos.
A CNA também propõe que organizações representativas dos produtores possam ser conectadas às iniciativas apresentadas na plataforma.
Por que isso importa para os produtores? - Na prática, a intenção é ampliar o acesso dos produtores a tecnologias, financiamento e ferramentas de adaptação, além de assegurar que políticas climáticas levem em consideração as condições reais da produção, especialmente nas regiões tropicais.
3. Balanço Global – medir corretamente as emissões da agropecuária
O que a CNA defende? – Outro ponto considerado estratégico é o chamado Global Stocktake (GST), ou Balanço Global, instrumento que avalia periodicamente os avanços dos países no cumprimento do Acordo de Paris.
A CNA defende avaliações baseadas em ciência robusta, dados consistentes e inventários nacionais cada vez mais precisos. O objetivo é fazer com que as características da agricultura e da pecuária tropicais sejam corretamente consideradas nas avaliações internacionais.
Por que isso importa para os produtores? – Essa discussão tem efeito direto para o setor porque metodologias inadequadas podem levar a interpretações equivocadas sobre a pegada ambiental dos produtos brasileiros e, consequentemente, gerar exigências, rotulagens ou restrições comerciais que não correspondam à realidade da produção nacional.
4. Financiamento climático – fazer o recurso chegar ao campo
O financiamento é um dos pontos centrais do posicionamento. Na COP 29, foi aprovada uma nova meta segundo a qual os países desenvolvidos devem mobilizar ao menos US$ 300 bilhões por ano até 2035.
De forma mais ampla, a meta é que diferentes atores públicos e privados contribuam para mobilizar pelo menos US$ 1,3 trilhão por ano até 2035.
O que a CNA defende? – Para a CNA, entretanto, não basta aumentar os volumes anunciados. É necessário facilitar o acesso ao dinheiro, desenvolver instrumentos adequados à agropecuária, reduzir o custo do crédito, ampliar seguros climáticos e conectar projetos de mitigação e adaptação às fontes de financiamento.
A questão é especialmente relevante porque o financiamento climático destinado especificamente à agricultura ainda é limitado.
Por que isso importa para os produtores? – Para quem produz, mais financiamento climático pode representar crédito em condições mais adequadas, maior oferta de seguro e recursos para investimentos como recuperação de pastagens, por exemplo, e outras tecnologias capazes de aumentar a produtividade e a resiliência da propriedade aos eventos climáticos.
5. Adaptação – preparar o campo para um clima cada vez mais desafiador
A adaptação é outro pilar do documento. Secas, ondas de calor, excesso de chuvas e outros eventos extremos afetam diretamente produtividade, custos e renda no campo.
Na COP 30, foram aprovados 59 indicadores internacionais de adaptação, cinco deles relacionados à agricultura e à segurança alimentar. Entre os temas avaliados estão adoção de práticas adaptativas, recuperação de áreas degradadas, produtividade e transferência de conhecimento e tecnologia.
O que a CNA defende? – A CNA defende que esses indicadores respeitem as especificidades da agropecuária, sejam acompanhados por financiamento, tecnologia e capacitação e reconheçam práticas capazes de aumentar a resiliência dos sistemas produtivos. A mensagem é simples: criar indicadores não basta; é preciso dar condições para que as medidas de adaptação sejam implementadas.
Por que isso importa para os produtores? – Para o produtor rural, essa agenda está diretamente relacionada à capacidade de enfrentar eventos climáticos extremos e variações do clima que afetam a produtividade e aumentam os riscos de perdas.
Na prática, medidas como sistemas integrados de produção, recuperação e conservação do solo e outras práticas de manejo ajudam a reduzir a vulnerabilidade da produção e manter a produtividade mesmo diante de condições climáticas adversas.
6. Transição justa
A transição para uma economia de menor emissão de carbono precisa levar em consideração as condições econômicas, sociais e produtivas de cada país e região, segundo a CNA.
O que a CNA defende? – No campo, isso significa reconhecer que a agropecuária gera emprego e renda, movimenta economias locais e é essencial para a segurança alimentar. A entidade também chama atenção para a sucessão rural e para a necessidade de criar oportunidades que permitam às novas gerações permanecer no campo.
A CNA defende ainda que a transição climática não seja utilizada como justificativa para medidas comerciais unilaterais que aumentem custos ou restrinjam mercados, sobretudo para os países em desenvolvimento.
Por que isso importa para os produtores? – Para o produtor rural, isso significa que as mudanças necessárias para reduzir emissões devem vir acompanhadas de condições para manter a renda e o sustento das famílias rurais e ampliar as oportunidades no campo.
Também significa criar condições para a sucessão rural, permitindo que as novas gerações tenham perspectivas de permanecer e produzir no campo.
7. Comércio e clima – evitar que regras ambientais se transformem em barreiras
Comércio internacional e mudanças climáticas estão cada vez mais conectados. Para a CNA, as políticas ambientais precisam contribuir para a redução das emissões sem se transformar em restrições injustificadas ao comércio.
O que a CNA defende? – A entidade defende maior compatibilidade entre diferentes regras climáticas, mecanismos de equivalência que reconheçam as políticas adotadas por cada país e medidas que reduzam a fragmentação regulatória. Também considera necessário reconhecer a diversidade das soluções existentes na agricultura e na segurança alimentar.
Por que isso importa para os produtores? – A discussão afeta diretamente produtos como soja, carne e café. Novas exigências podem elevar custos com burocracia, rastreabilidade e certificação ou dificultar o acesso a determinados mercados. Por isso, a CNA sustenta que as regras ambientais internacionais devem considerar as diferentes condições de produção e evitar custos ou restrições desproporcionais.
8. Mitigação – reconhecer e remunerar resultados obtidos no campo
O que a CNA defende? – No último eixo, a CNA defende que o Programa de Trabalho de Mitigação da ONU produza resultados efetivos e mensuráveis, tenha maior conexão com financiamento e reconheça as particularidades da agropecuária e do uso da terra.
A entidade também propõe maior reconhecimento dos esforços já realizados pelos produtores na adoção de práticas sustentáveis capazes de reduzir emissões de gases de efeito estufa e aumentar a captura e fixação de carbono no solo.
Por que isso importa para os produtores? – Isso pode abrir espaço para que práticas como plantio direto e fixação biológica de nitrogênio tenham seus benefícios climáticos reconhecidos e valorizados, criando oportunidades de financiamento e remuneração e, ao mesmo tempo, contribuindo para ganhos de produtividade.
Conclusão – O A COP 31 terá o desafio de avançar simultaneamente em temas como financiamento, transparência, adaptação, agricultura e mitigação, em um cenário internacional marcado também por disputas comerciais, conflitos e riscos às cadeias de suprimento de alimentos e insumos.
O desafio, para a Confederação, é transformar metas climáticas em instrumentos que funcionem na prática. Isso passa por crédito acessível, seguro, pesquisa, assistência técnica, transferência de tecnologia, capacitação, cooperação internacional e condições para que projetos sustentáveis consigam sair do papel.
Para a CNA, o setor agropecuário brasileiro deve ser considerado um dos pilares para a implementação dos compromissos climáticos do país, com reconhecimento dos esforços dos produtores na conservação dos recursos naturais, na adoção de tecnologias sustentáveis e na garantia da segurança alimentar.
O objetivo da Confederação é contribuir para que a COP 31 avance justamente no passo seguinte: transformar compromissos, metas e negociações em condições concretas para ampliar a adaptação, a mitigação e a sustentabilidade da produção agropecuária.
Acesse aqui o posicionamento para a COP31