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Programa Empreendedor Rural passa por reformulação com ênfase no envolvimento familiar
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Programa chega a sua 19ª edição em 2022 reformulado e a todo vapor para criar a cultura de olhar para propriedades rurais como negócios

11 de maio 2022
Por CNA
Por Senar

As restrições causadas pela pandemia do novo coronavírus impediram que em 2020 e em 2021 fosse realizado o Encontro Estadual de Líderes e Empreendedores Rurais – o tradicional evento anual que marca o encerramento do Programa Empreendedor Rural (PER) e reúne milhares de produtores de todas as regiões do Paraná. Apesar de a festa ter sido suspensa temporariamente, o PER manteve algumas atividades. O programa chega a sua 19ª edição em 2022 reformulado e a todo vapor, de cara nova. Antes, de forma piloto, levou o novo formato a salas de aula, com resultados animadores – e com todos os cuidados sanitários.

A reformulação manteve o objetivo principal do programa: fazer com que o aluno amplie a visão sobre a propriedade e o negócio, tornando-se um empresário-empreendedor. Em outras palavras, ajudar o produtor a transformar sua propriedade em um negócio. Para isso, ao longo do PER, o participante trilha um percurso de aprendizagem, desenvolvendo um projeto que possa ser implantado na prática, de olho na realidade que encontra no campo. A grande novidade é que o programa agora também foca na família do produtor, que passa a ser envolvida desde o início. Neste contexto, a iniciativa se desenvolve a partir do conceito “empresa-família”, trabalhando três dimensões: família, negócio e patrimônio.

“O PER convida o participante a pensar não só um projeto para a propriedade em si, mas a promover um resgate da família. A ideia é que o desenvolvimento da propriedade seja estabelecido em conjunto com os familiares, não algo imposto pelo participante”, explica a técnica do Departamento Técnico (Detec) do Sistema FAEP/SENAR-PR e responsável do PER, Vanessa Reinhart.

Iniciada em 2019, a atualização do PER partiu de avaliações de especialistas, instrutores e participantes de todo o país. Eles identificaram que a principal causa que levava projetos de alunos a não serem implantados estava relacionada a dificuldades no relacionamento entre os alunos e seus familiares. O novo modelo foi testado já em 2019, com dez turmas-piloto. No ano passado, o SENAR-PR selecionou, via edital, 21 novos instrutores, que foram treinados a atuar no programa já remodelado. Em 2021, seguindo todos os protocolos sanitários, 408 alunos, divididos em 38 turmas, frequentaram o PER.

“Foram turmas com número reduzido de alunos, já com a nova formatação. A avaliação dos participantes foi positiva. Os trabalhos geraram um espaço de diálogo, que permitiu traçar objetivos em comum”, diz Vanessa.

Construindo consenso

O agricultor Benedito Cláudio dos Santos, de 39 anos, foi um dos alunos que frequentou o PER em 2021. Localizada em Altamira do Paraná, região Centro-Sul, a propriedade da família dele é trabalhada por três gerações diferentes. Por um lado, isso propicia a diversificação das atividades, mas, por outro, acaba dificultando o estabelecimento de objetivos comuns. Com a percepção de quem teve acesso aos dois modelos do PER – ele também havia concluído o programa em 2015 –, Santos aprovou o foco na família. Para ele, a construção de consenso é determinante para viabilizar o negócio.

“Na outra versão, o foco estava na participação do empreendedor. A nova abordagem trouxe a família para a discussão. Eu achei muito interessante”, ressalta Santos. “Aqui, somos três gerações. Então, há muitas diferenças, cada um com sua visão. Conciliar os objetivos de todos é um desafio. O PER nos ajudou nisso”, avalia.

Ao longo de 2021, Santos desenvolveu um projeto voltado à produção de orgânicos – principalmente tomate – na propriedade da família. O agricultor está com o cultivo protegido de 600 pés, conduzido de forma experimental. Enquanto isso, o produtor analisa a viabilidade financeira do negócio, de olho na venda para a merenda escolar e a mercados. Formado em Química, Santos planeja apostar na agricultura sustentável como forma de ampliar a rentabilidade da propriedade – em que o pai cultiva uva e a sobrinha atua com gado de leite e olericultura.

Paralelamente, ele mantém cultivos experimentais de plantas medicinais – como melaleuca, lippia alba (um tipo de cidreira) e capim-santo –, visando a extração e comercialização de óleos essenciais. A produção foi tema de seu projeto desenvolvido no PER de 2015. A intenção de Santos é, ao longo dos próximos anos, conciliar a produção de orgânicos com os óleos essenciais, tornando as atividades sua principal fonte de renda. “Nos dois casos, eu estou fazendo estudos de escala, para ver a viabilidade financeira”, observa o empreendedor rural. “O PER ensinou tudo: a elaborar projetos, fazer diagnósticos e avaliações, estudo de viabilidade e de capitais e ter uma visão profissional, mesmo, sobre a propriedade”, avalia.

Também em Altamira no Paraná, o produtor rural Fábio Henrique Amaral de Melo, de 25 anos, foi outro participante que concluiu o PER em 2021. Até cinco anos atrás, ele vivia em Santo André, São Paulo, onde nasceu e levava uma vida completamente urbana. Lá, começou a trabalhar aos 12 anos, pegando bolinhas em um clube de tênis e, posteriormente, foi funcionário de uma rede de fast food. Quando se mudou ao Paraná é que começou a relação com o campo, estreitada pelas capacitações do SENAR-PR.

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“Eu comecei a fazer os cursos e falavam muito bem do PER. E foi uma oportunidade incrível. Eu já via a propriedade como um negócio, mas não sabia bem como administrar isso. Foi muito importante a questão do planejamento, das avaliações”, destaca.

O sítio – que pertencia ao avô materno de Melo – foi dividido entre duas tias, um tio e a mãe do rapaz. Na parte que ele administra com os pais, a família mantém seis cabeças de vaca e um boi voltados à recria. Além disso, cultivam uma pequena plantação de cana e arrendam uma pequena área. O projeto de Melo visa otimizar a criação de gado, integrada à produção agroflorestal – com hortaliças, frutas e madeiras nobres. Ele também planeja apostar no cultivo de uvas, mirando-se no exemplo de uma das tias. O PER foi determinante para a execução do planejamento e a adoção dessa visão mais abrangente e profissional.

“O nosso sítio tem uma particularidade: ele é comprido. Mas é como o instrutor disse: não existe área que seja inviável de se trabalhar. A questão é ter planejamento e organização”, reforça. “Eu sentei com meu pai, mostrei os números. Compensa pegarmos um financiamento e colocarmos gado próprio. Seria bem mais vantajoso do que arrendar. Devagar a gente vai explicando, vai mostrando. O meu projeto é economicamente viável, mas precisamos levantar o financiamento para dar certo”, diz o produtor, que aponta o PER como determinante nesse processo de construção de consenso com os familiares.

Um sonho com gostinho de história

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Há um ano e meio, Mariana Martins Marcondes, de 34 anos, passou a apostar na produção de doces artesanais como forma de permanecer no campo. Mas o negócio vai além dos sabores que saem da sua cozinha. Filha de produtores rurais em Guarapuava, no Centro-Sul, a empreendedora uniu a gastronomia ao resgate histórico da trajetória da própria família, em um modelo carregado de valor afetivo. Afinal, as receitas estão com a família há décadas, passando de geração para geração. Isso explica o nome da marca criada por Mariana: Doce Legado. E a realização desse sonho passou pelos saberes difundidos pelo PER.

A família está na região desde 1818, quando o trisavô de Mariana se fixou naquelas terras, dedicando-se à produção agropecuária, criando porcos e galinhas e mantendo uma pequena lavoura, quase de forma rudimentar – que é como a atividade se dava na época. “Minha família está por aqui desde o descobrimento dos Campos Gerais. Era aquela coisa, assim, de troca de alimentos ou de pequenos comércios”, diz Mariana.

A empreendedora nasceu na propriedade e, aos seis anos, mudou-se para a cidade. Os pais deram continuidade à vocação rural dos antepassados, criando vacas das raças Jersey e holandesa, chegando a produzir queijo por um período. Mariana estava por dentro do que se passava na propriedade, mas não participava do negócio. Cursou Agronomia e fez mestrado, mas, ainda assim, não estava ligada à gestão dos negócios familiares.

Em 2017, ao começar doutorado – em que pesquisou melhoramento genético na cultura do milho –, Mariana voltou a morar na propriedade, desenvolvendo o projeto prático para seus estudos. Entre livros e pesquisas, a jovem se reconectou com a tradição familiar dos doces caseiros. Naquele inverno, como havia uma produção considerável de abóbora gila, ela quis aprender a fazer as receitas que sempre via as tias e mãe preparando. O processo era o mesmo de antigamente: fogão a lenha, tacho e colher de pau.

“É algo que dá trabalho, mas eu gostei de fazer aquilo. Era uma reconexão com a história da minha família”, conta Mariana, que também auxilia no controle pecuário dos animais da fazenda. “Como eu fazia muitos doces, comecei a vender para conhecidos e amigos. Foi aí que surgiu a ideia”, acrescenta.

Mariana, no entanto, não entendia de gestão, de análise de mercado, nada disso. Foi então que se matriculou no PER, ao longo do qual desenvolveu um projeto de implantação de uma agroindústria voltada à produção de doces caseiros. Viu que havia viabilidade, embora precisasse de alguns ajustes. Ela percebeu, por exemplo, que não poderia continuar usando a cozinha da casa. A saída foi adaptar um espaço para si, no salão de festas da propriedade. É de lá que saem, hoje, os produtos da Doce Legado.

“Para a propriedade em si, a renda gerada pelo negócio não representaria muita coisa. Mas era uma renda que possibilitaria que eu permanecesse na propriedade. É um negócio que agrega valor aos produtos e me gera uma fonte de renda”, diz a empreendedora. “A produção ainda é pequena, mas os próximos passos são ganhar em escala e passar a vender para mercados e padarias”, afirma.

Mariana, no entanto, ressalta que é preciso planejamento, dedicação e manter os pés no chão, para concretizar as ideias de uma forma racional e profissional. “O PER foi essencial para eu ter uma visão geral do negócio e saber empreender. Quando sai daquilo de fazer doce para a família, vira outra coisa: tem escala, adaptações, testes e padrões que precisam ser feitos para a comercialização”, aponta. “Mas vale a pena. O ‘Doce Legado’ simboliza as mulheres fortes da minha família, que sempre tiveram um poder na propriedade”, define.